“A inserção das mulheres no mundo do trabalho constitui-se em tema de grande interesse quando se trata de discutir a igualdade de gênero na sociedade brasileira.” Assim começa o texto de um estudo elaborado pelo IPEA, lançado em março deste ano, com base nas PNADs (Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios, do IBGE), intitulado Mulheres e trabalho: breve análise do período 2004-2014.
 O título é sugestivo em um momento de crise, que também atinge o até então intocável mercado cosmético. Uma vez que é inegável a participação da mulher neste segmento da economia nacional, vale a pena fazer essa radiografia.

As mulheres brasileiras conquistaram espaço no mercado de trabalho. Em especial a partir da década de 1970, entraram nele com bastante força. Dados dos censos demográficos apontam que, em 1970, apenas 18,5% das mulheres eram economicamente ativas contra os quase 50% alcançados em 2010. Vale lembrar que a população economicamente ativa serve como base para o indicador de taxa de atividade, que aponta a quantidade de pessoas de uma determinada faixa etária que está disponível para o mercado de trabalho (ocupada ou procurando uma ocupação) em relação a toda a população da mesma faixa etária. Portanto, quanto maior o valor nominal do indicador, maior a participação daquele extrato na economia ativa do país. A mulher é mais bem qualificada, gasta mais tempo que os homens estudando e ainda dá conta dos trabalhos no lar, mas, apesar disso, ela ganha em média 30% menos que o homem. Essa realidade, que já foi pior – há uma década, a mulher tinha um desfalque de 37% nos seus rendimentos -, assusta e preocupa.

A publicação dá destaque à posição das mulheres negras e pobres, que ocupam uma posição desfavorável no mercado de trabalho brasileiro. Elas não chegam a ganhar 40% do valor do contracheque de um homem branco. Em 2014, o homem branco – no topo da pirâmide – contava com um rendimento médio de R$ 2.393; a mulher branca, de R$ 1.831; e a negra, de apenas R$ 946. O estudo mostra um movimento de aproximação dos rendimentos entre as classes, porém atesta que ele ocorre em velocidades lentas e que geralmente é desigual entre os grupos. É mais rápido entre o homem branco/mulher branca do que entre o homem branco/mulher.

As mulheres negras têm a maior taxa de desocupação. Estão submetidas às situações mais precárias de trabalho, com baixos salários e sem carteira assinada. No Brasil, a maior parte do contingente de domésticas é negra. Mas há muito mais trabalhadoras domésticas brancas com carteira assinada.

“O mundo do trabalho é a dimensão mais importante da vida social, tanto do ponto de vista da produção de bens e serviços para as coletividades, como também do ponto de vista da autonomia econômica e de realização individual”, destaca o IPEA.

Os atuais sinais de reversão de um ciclo de crescimento do emprego formal são, portanto, preocupantes, na medida em que esse extrato da sociedade está mais propenso a sentir primeiro os efeitos de uma conjuntura desfavorável, cujos contornos ainda não estão muito bem definidos.

Há muito a se dizer sobre as desigualdades entre homens e mulheres neste espaço tão valorizado nas sociedades capitalistas contemporâneas. E, em especial, há muito a se dizer sobre as desigualdades existentes entre as próprias mulheres. Mesmo que exista um marcador comum que as coloque em piores condições no espaço do trabalho, existem muitos outros marcadores que as separam e as hierarquizam. Atacar essas diferenças de gênero tem que ser objeto de política de Estado.

*Para os interessados no assunto, o estudo completo está no link
http://www.mtps.gov.br/images/Documentos/Noticias/Mulher_e_trabalho_marco_2016.pdf

Mulher e mercado de trabalho: uma visão da desigualdade

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