Gerir um mundo com 7 bilhões de habitantes sedentos de consumo não é algo fácil, e os sistemas à moda antiga, nos quais se plantava no quintal para colocar na mesa uma alface fresca, ou se passava um par de sapatos do irmão mais velho para o mais novo, não funcionam mais.

Apenas para refletirmos sobre como as mudanças são profundas, vejam os dados a seguir. Em 2000, a classe média mundial representava 22,5% da população. Em 2010, já eram 28,0% e respondiam por 45% do consumo. Esmiuçando um pouco mais os números, o que se observa é que os países emergentes que compõem o BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) são os principais fornecedores desses novos consumidores e estes atualmente não só vivem mais do que antes, como têm poder aquisitivo maior. Eles são consumidores que não querem mais o aparelho de celular que tinham no ano anterior, mas o novo que acabou de sair. Consumidores inexperientes se lambuzam nesse doce mundo do crédito, do desejo de consumir e do prazer de possuir, sem a dor do impacto que isso possa ter agora e no futuro, aqui ou no mundo. Esse é um grupo que traz no inconsciente a ideia de que “agora é a minha vez”. Junte a esse fato o desejo inato do ser humano de ignorar os efeitos de suas ações ou, se preferir, o desejo de não querer saber os efeitos de suas ações, o que nos leva a uma miséria pessoal e social.

O Brasil vem atravessando um período de sucessivos progressos em vários indicadores, como o aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a expansão da expectativa de vida, uma vigilância maior nos assuntos que dizem respeito ao sistema de educação etc. A situação econômica do País, apesar das crises norte-americana e europeia, vem se sustentando com as políticas do Banco Central para conter a inflação, que, em 2011, encerrou no topo da meta oficial estipulada, ou seja, de 6,5% (a meta era de 4,5% pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo, IPCA). O índice foi o maior desde 2004 (que foi de 7,6%) e vem crescendo consecutivamente nos últimos dois anos (4,3% e 5,9%, respectivamente). Vale lembrar que foi necessário que o governo abrisse mão do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos eletrodomésticos, no último trimestre, para trazer a inflação para o nível de 6,5%. Dessa forma, com os preços desses produtos mais baratos, foi possível manter o índice no topo da meta.

Preços mais baixos e menor taxa de juros que remunera os investimentos de renda fixa (os investimentos preferidos dos consumidores de classe média), cuja consequência imediata é o aumento do consumo interno, acabam implicando no consumo de mais recursos naturais. Junte-se a isso uma redução da taxa de desemprego, puxada principalmente pela absorção da mão de obra na construção civil, e teremos um caldo perfeito para o aumento da inflação em 2012. Os especialistas dizem que não, veremos.

Como consequência de vivermos num mundo aquecido em termos de crescimento populacional e economicamente mais favorável, novos assuntos começam a demandar decisões cada vez mais difíceis. São decisões que envolvem (e envolverão) toda a sociedade, atual e futura. Eu gostaria de destacar o tema dos transgênicos, entre os milhares de assuntos que nos demandam tomar decisões urgentes. Com uma população cada vez maior, a necessidade de mais alimentos é inevitável. A agricultura convencional corre cada vez mais acelerada no sentido de suprir essas fortes demandas. E, entre as várias técnicas que podem contribuir para dar fôlego ao setor agrícola, o uso de sementes transgênicas é a que vem se mostrando mais promissora, pois requer menor uso de defensivos agrícolas e maior resistência às pragas naturais.

Desde que se iniciou o plantio de variedades transgênicas no País, os Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente reivindicaram, na CTNBio, entidade que autoriza ou não o uso de processos biotecnológicos, que as autorizações fossem precedidas de estudos de impacto ambiental – o que inclui não só o estudo sobre a biodiversidade, como também o impacto desses processos na saúde humana. Porém, os ministérios foram invariavelmente vencidos, com o argumento de que essa se trata de uma postura ideológica, em oposição a uma visão científica.

A CTNBio, por meio de uma resolução normativa, autoriza as empresas (a maioria estrangeiras) produtoras de sementes transgênicas a pedir isenção de monitoramento no plantio, depois de este ser liberado comercialmente, o que fará que os resultados de estudos sobre os impactos no longo prazo sejam apenas de domínio das empresas e não mais da União. Na opinião de muitos, o fato demonstra um desmanche das regras de biossegurança do País, pois esta ação desrespeita a convenção internacional, de que o Brasil é signatário, que consagra a necessidade de se ater ao princípio de precaução com a biodiversidade. Não se trata de ser contra ou a favor, mas sim de chamar a atenção para o fato de que não podemos assumir riscos excessivos apenas porque estamos sendo premidos por um aumento populacional e, consequentemente, por um aumento de consumo de alimentos ou de qualquer outro bem.

Apesar do problema que o crescimento populacional nos traz com o aumento do consumo, parece que o fantasma de Thomas Malthus volta a cada ano com intensidade menor, pois, para muitos, o problema não é mais o quanto seremos em termos de população, mas como faremos uso dos recursos disponíveis de forma racional e eficiente. Separar a gestão de recursos naturais de uma política de crescimento demográfico me parece utópica.

Sim, é inevitável reconhecermos que estamos diante de uma transformação que tende a mudar radicalmente a face do planeta. Só nos resta saber se para melhor ou pior.

7 bilhões de pessoas!

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