Vinte anos após a queda do Muro de Berlim, muitos ainda não se deram conta de que vivem atrás de outros muros tão impeditivos ao desenvolvimento quanto os muros físicos: as agências reguladoras

A queda do Muro de Berlim e a revolução global do mercado que se seguiu emanciparam centenas de milhões de pessoas. Embora a censura e diversas outras formas de controle estatal ainda existam no mundo, nunca tantas pessoas puderam acessar informação para adquirir conhecimento e se relacionar entre si. Os estonianos são membros da União Europeia, crianças da nova elite russa frequentam escolas suíças e os chineses são os turistas em maior abundância no Museu Olímpico.

É justo celebrar o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim e os progressos da humanidade no caminho do liberalismo, mas é difícil esconder certa tristeza, pois, apesar de sua demolição, ainda existem muitos outros muros remanescentes, além dos novos, que foram erguidos neste período. Por exemplo, hoje em dia há um único mundo em que as elites de Mumbai, Xangai, Dubai, Londres, Nova Iorque e São Paulo convergem para a discussão de interesses profissionais em comum e compartilhar um vinho Vintage, enquanto se mantêm conectadas à sua “base” via BlackBerrys ou iPhones. Mas ainda há centenas de milhões de pessoas que estão globalmente marginalizadas e mais de 3 bilhões que sequer têm acesso a um banheiro decente. Parafraseando Benjamin Disraeli: “Pode haver um único planeta, mas há dois mundos muito distintos: o dos incluídos e o dos excluídos”.(1)

Há muitos muros comerciais, conhecidos como barreiras, dentre as quais as mais prejudiciais são aquelas que discriminam os países que disputam um lugar ao sol. Na medida em que tarifas proibitivas minam os esforços de crescimento dos países pobres, elas ajudam a garantir que os muros que os separam dos ricos continuem a ser altos e largos. Além do fato de ajudar a criar aberrações políticas, como a Coreia do Norte, o Irã e a Venezuela, países que, por terem sido preteridos do seleto grupo dos países desenvolvidos, ameaçam a tranquilidade mundial.

Assim como estamos longe de viver em um mundo sem fronteiras, também estamos distantes de ter uma economia de mercado global aberta e ética, além de justa, honesta, bem-intencionada e tudo o que se encerra por detrás desta pequena, porém profunda palavra.

É inegável a obrigatoriedade da presença das agências reguladoras no Estado moderno, como agentes com a função principal de aparar as inevitáveis arestas entre os diversos agentes de mercados, porém estas agências não podem ceder à tentação de assumir para si o papel de ser mais um organismo na construção de muros, sob pena de serem mais dos mesmos. O mundo precisa de agentes demolidores de muros. Temos de sair de trás dos muros regulatórios e assumir as posições de cidadãos responsáveis. Lembrando que um Estado com excesso de leis é um Estado rígido, que não se flexiona em relação ao moderno, ao sustentável, e que inevitavelmente dá as costas para o futuro.

Precisamos de menos leis e mais consciência.

É triste perceber posturas das agências reguladoras como: “Nossa visão deste lado do muro é…”, “Temos de garantir a soberania nacional…”, “Não nos cabe interpretar a lei, apenas cumpri-la…”. Será que não está na hora de mesclar a expertise dos agentes reguladores com recursos humanos oriundos do mercado profissional, na tentativa de termos um time mais multidisciplinar e prático? Homens que estejam acostumados a enxergar além dos muros? Talvez menos teoria e mais praticidade fosse o remédio mais adequado para a eficácia das agências.

Como o mundo tem driblado os diversos muros? O tradicional ponto forte dos negócios tem sido a habilidade de contornar as paredes. Mesmo diante do Muro de Berlim, muitas empresas perspicazes conseguiram fazer grandes negócios na União Soviética. A filosofia dos negócios tem sido a de aceitar a realidade dos muros. Chamamos isso de “pragmatismo”. Mas a história nos mostra que contornar muros nos levará apenas à ideia de que temos de viver com eles. Como já estamos no século 21 e somos capazes de, em ocasiões como o aniversário da queda do Muro de Berlim, refletir sobre nosso passado e futuro, torna-se obrigatório que todos pensemos de outra forma sobre os muros. Os muros são realmente necessários? Se sim, até que ponto? Onde? Faço parte dos que constroem ou da equipe de destruição de muros? Quando nos dermos conta de que a irresponsabilidade e o descaso com que tratamos essas questões podem levar-nos a situações extremamente desconfortáveis, o caminho da mudança estará aberto.

Já derrubou o seu muro hoje?

Benjamin Disraeli: escritor e político britânico de origem judaica italiana e duas vezes primeiro-ministro no final do século 19.

Nota do autor: apesar da frase dita por Disraeli, ele mesmo ajudou a construir um mundo desigual em sua época, ao ser partidário de uma política imperialista e expansionista, que, da mesma maneira que o Muro de Berlim, separava os berlinenses orientais dos ocidentais, e que mantinha a Índia separada do mundo desenvolvido. De qualquer maneira, as ideias políticas dele não tiram o mérito de sua perspicaz observação sobre o nosso mundo.

Vamos falar sobre muros

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